Ablação por Plasma de Baixa Temperatura em Doenças Corneanas Superficiais: Resultados Clínicos e Papel da Enfermagem Perioperatória

Ablação por Plasma de Baixa Temperatura em Doenças Corneanas Superficiais: Resultados Clínicos e Papel da Enfermagem Perioperatória

Contexto

A ceratectomia superficial (SK) convencional — seja mecânica ou com excimer laser — é a abordagem cirúrgica padrão para lesões corneanas superficiais refratárias ao tratamento clínico. Contudo, ela carrega riscos como haze, infecção, cicatrização epitelial retardada e é contraindicada em córneas finas ou com ceratite ativa. A ablação por plasma de baixa temperatura (LTPA, do inglês low-temperature plasma ablation) surge como alternativa minimamente invasiva, substituindo instrumentos mecânicos por energia de radiofrequência aplicada a uma solução eletrolítica que gera uma fina camada de plasma capaz de quebrar ligações moleculares do tecido-alvo sem aquecimento direto dos tecidos adjacentes.

Um estudo retrospectivo publicado no Frontiers in Surgery avaliou 38 pacientes submetidos à LTPA em um centro oftalmológico chinês, integrando à análise clínica um protocolo estruturado de enfermagem perioperatória e monitoramento digital baseado em imagens de lâmpada de fenda.

Desenho do Estudo

A coorte incluiu 38 olhos (38 pacientes; 16 homens e 22 mulheres), com idade média de aproximadamente 52 anos (variação: 22–87 anos). Os pacientes foram divididos em dois grupos conforme a etiologia:

  • Grupo não infeccioso (n = 30): erosão epitelial recorrente, hiperplasia epitelial, degeneração corneana, cicatriz estromal superficial e distrofia da membrana basal epitelial.
  • Grupo infeccioso (n = 8): úlceras corneanas infecciosas (incluindo dois casos de ceratite fúngica).

Critérios de inclusão exigiam lesões limitadas ao terço anterior do estroma (profundidade inferior a 150 μm), confirmadas por OCT de segmento anterior, falha de tratamento clínico por pelo menos duas semanas e seguimento mínimo de três meses. No grupo infeccioso, a supuração aguda precisava estar controlada antes da cirurgia.

Desfechos Clínicos Principais

Cicatrização epitelial e recorrência

O tempo de cicatrização epitelial foi significativamente maior no grupo infeccioso em comparação ao não infeccioso (aproximadamente 13,5 vs. 5,9 dias, p = 0,040). A taxa de recorrência em três meses também foi expressivamente superior no grupo infeccioso (25% vs. 0%, p = 0,005). Dentre os dois pacientes com ceratite fúngica, ambos apresentaram deterioração clínica progressiva apesar da LTPA e do tratamento padrão: um necessitou de ceratoplastia penetrante terapêutica e o outro foi submetido à cobertura com retalho conjuntival para preservar a integridade do globo ocular.

Dor pós-operatória

A dor foi avaliada pela Escala Visual Analógica (EVA) nos momentos pré-operatório e nos dias 1, 3 e 7 de pós-operatório. A ANOVA de medidas repetidas demonstrou efeito principal significativo tanto para o grupo (F = 20,33; p < 0,001) quanto para o tempo (F = 241,10; p < 0,001), indicando que ambos os grupos apresentaram redução progressiva da dor ao longo do seguimento. Entretanto, o grupo infeccioso manteve escores de dor consistentemente mais elevados em todos os momentos avaliados. A interação grupo × tempo não foi significativa, sugerindo que o padrão de melhora foi semelhante entre os grupos.

Complicações

Cicatrização epitelial retardada ocorreu em 5 pacientes (13,2% da coorte), sendo 4 no grupo infeccioso e 1 no não infeccioso. Nenhuma complicação grave — como perfuração corneana, descompensação endotelial ou infecção secundária — foi registrada.

Monitoramento Digital por Imagem

Uma das contribuições metodológicas do estudo foi a incorporação de imagens digitais de lâmpada de fenda com coloração por fluoresceína para quantificação objetiva dos defeitos epiteliais. As imagens foram processadas por um algoritmo baseado na linguagem R (versão 4.3.2), que isolava o canal verde — correspondente à emissão da fluoresceína sob iluminação de cobalto — e aplicava limiarização automática pelo método de Otsu para delimitar a área do defeito.

Esse sistema permitiu a detecção precoce de cicatrização retardada em 4 dos 5 casos identificados, facilitando ajustes oportunos de medicação tópica. Os autores destacam que a abordagem reduziu a subjetividade da avaliação clínica e melhorou a documentação e a comunicação interdisciplinar. Contudo, o próprio estudo reconhece que o método não foi formalmente validado para reprodutibilidade interobservador ou multicêntrica — métricas como kappa de Cohen ou coeficiente de correlação intraclasse não foram calculadas.

Protocolo de Enfermagem Perioperatória

O estudo enfatiza que os resultados observados refletem a sinergia entre a técnica cirúrgica e um protocolo estruturado de enfermagem, organizado em três fases:

  • Pré-operatória: avaliação multidisciplinar (oftalmologistas, anestesiologistas e enfermeiros), educação individualizada com recursos visuais, suporte psicológico para redução de ansiedade e melhora da adesão.
  • Intraoperatória: manutenção de técnica asséptica rigorosa, monitoramento do equipamento de plasma (saída de plasma e fluxo de irrigação) e suporte emocional ao paciente.
  • Pós-operatória: avaliação diária por imagem da cicatrização epitelial, orientação nutricional (dieta rica em proteínas e vitaminas), manejo padronizado de dor e fotofobia, planejamento de alta com instruções detalhadas e contato telefônico para pacientes de alto risco (como portadores de úlceras infecciosas ou comorbidades sistêmicas).

A satisfação com a enfermagem foi significativamente menor no grupo infeccioso em comparação ao não infeccioso (aproximadamente 75,5% vs. 96,7%; p < 0,001), resultado que os autores associam à maior complexidade clínica e às recorrências nesse subgrupo.

Limitações

Os próprios autores listam limitações importantes que devem balizar a interpretação dos resultados:

  1. Desenho retrospectivo e observacional, sem grupo controle, o que impede estabelecer causalidade ou superioridade da LTPA sobre técnicas convencionais.
  2. Amostra pequena (n = 38 no total; n = 8 no grupo infeccioso), com poder estatístico limitado e baixa generalização.
  3. Seguimento de apenas três meses, insuficiente para avaliação de recorrências e estabilidade da superfície ocular a longo prazo.
  4. Ausência de validação formal do sistema de análise digital de imagens.

Estudos prospectivos randomizados são necessários para validar esses achados preliminares e padronizar parâmetros do procedimento.

Relevância para a Prática Clínica

Para o oftalmologista brasileiro, a LTPA representa uma opção potencialmente útil em casos de doenças corneanas superficiais em que a ceratectomia convencional apresenta maior risco — como córneas finas ou úlceras de difícil cicatrização. Os resultados sugerem que a etiologia infecciosa está associada a evolução mais complexa e deve motivar protocolos de seguimento mais intensivos. A integração de ferramentas digitais de monitoramento no fluxo de cuidado pós-operatório, embora ainda carente de validação robusta, aponta para um modelo de cuidado baseado em dados que merece investigação prospectiva.

Fontes

Read more

Peonidin, pigmento de antocianina, demonstra potencial inibitório em enzimas ligadas ao glaucoma e outras doenças

Peonidin, pigmento de antocianina, demonstra potencial inibitório em enzimas ligadas ao glaucoma e outras doenças

Peonidin no radar oftalmológico Um estudo recente avaliou as propriedades biológicas da peonidin, uma antocianina solúvel em água responsável pelas colorações vermelha, roxa e azul em diversas plantas, frutas, vegetais e grãos de cereais. Os pesquisadores investigaram tanto a capacidade antioxidante quanto o potencial de inibição enzimática do composto, com

By Equipe Olhar Clínico
Revisão sistemática canadense mapeia programas de acesso oftalmológico para populações vulneráveis

Revisão sistemática canadense mapeia programas de acesso oftalmológico para populações vulneráveis

Contexto Populações que enfrentam barreiras ao cuidado ocular — comunidades indígenas, pessoas em situação de rua, imigrantes, refugiados e estudantes de baixa renda — frequentemente não chegam ao consultório oftalmológico convencional. Uma revisão sistemática recém-publicada mapeou programas canadenses voltados a esse desafio, avaliando seus modelos de entrega, rendimento clínico e desfechos de

By Equipe Olhar Clínico
Microagulhas e Exossomos: Uma Plataforma de Entrega Combinada para Doenças Oculares e Multissistêmicas

Microagulhas e Exossomos: Uma Plataforma de Entrega Combinada para Doenças Oculares e Multissistêmicas

Visão Geral A combinação de microagulhas (MNs) com exossomos surge como uma das direções mais promissoras na entrega localizada de terapias biológicas. Uma revisão recente sistematizou os avanços nessa área, cobrindo publicações predominantemente entre janeiro de 2023 e junho de 2026, e organizou as evidências por doença, relacionando as barreiras

By Equipe Olhar Clínico