CEACAM1 está presente na retina e coroide adultas, mas sua deleção não altera a homeostase ocular
Contexto
A proteína CEACAM1 (CC1) é uma glicoproteína transmembrana conhecida por participar de processos de proliferação celular, adesão e angiogênese — em parte por interagir com o VEGF e induzir a expressão de VEGFR2. Seu papel já foi estudado em órgãos como fígado, pulmão e coração, mas sua expressão e função no olho adulto permaneciam praticamente desconhecidas. Um novo estudo publicado no Cell and Tissue Research investigou justamente essa lacuna, caracterizando a distribuição de CC1 na retina e coroide de camundongos adultos saudáveis e avaliando as consequências de sua deleção.
Onde a CC1 é expressa no olho?
Por meio de imunoistoquímica e citometria de fluxo (FACS), os pesquisadores identificaram expressão proeminente de CC1 na camada de células ganglionares e nas camadas plexiformes interna e externa da retina — regiões que coincidem com a localização da vasculatura intraretiniana e das células mieloides residentes. A coexpressão com CD31 (marcador endotelial) e IBA-1 (marcador de células mieloides) confirmou que células endoteliais e células mieloides são os principais tipos celulares que expressam CC1 tanto na retina quanto na coroide. A análise por FACS ainda demonstrou expressão de CC1 em células mieloides CD11b⁺ em ambos os tecidos.
Os autores levantam a hipótese de que os elevados níveis de VEGF secretados pelo epitélio pigmentar da retina (EPR) — necessários para manter a estrutura fenestrada da coriocapilar — possam contribuir para a expressão persistente de CC1 no endotélio coroidal, dado o relacionamento bidirecional entre CC1 e VEGF já descrito na literatura.
O que acontece quando a CC1 é deletada?
Utilizando camundongos Ceacam1⁻/⁻ e comparando-os com controles tipo selvagem, o estudo avaliou múltiplos desfechos:
Vasculatura retiniana
Fotografia de fundo de olho, angiofluoresceinografia e perfusão com FITC-dextrano revelaram arquitetura vascular normal em ambos os grupos. Não foram observados sinais de vazamento, rarefação vascular, ramificações anômalas ou microaneurismas nos animais knockout. A barreira hematorretiniana mostrou-se intacta.
Células mieloides
As células mieloides dos camundongos Ceacam1⁻/⁻ mantiveram a morfologia ramificada típica do estado de repouso, sem sinais de hipertrofia ou retração de processos. A contagem celular nas três camadas retinianas onde essas células normalmente residem não diferiu entre os genótipos.
Arquitetura retiniana e coroidal
Medidas morfométricas da espessura das camadas nucleares interna e externa não mostraram diferenças significativas entre os grupos. Secções semifinas e microscopia eletrônica não revelaram alterações no EPR, na membrana de Bruch ou nas fenestras endoteliais da coroide.
Transcriptoma da coroide
O sequenciamento de RNA (RNA-Seq) da coroide demonstrou alta similaridade transcricional entre os genótipos. Apenas 61 genes apresentaram expressão diferencial (p ajustado < 0,05), dos quais somente 21 codificavam proteínas. A análise de enriquecimento de ontologia gênica (GO) nesse conjunto não gerou resultados significativos.
Interpretação: papel atenuado na homeostase, potencial relevância na doença
Os achados indicam que, no estado adulto e saudável, a função da CC1 no olho é dispensável ou compensada por outros mediadores moleculares. Esse padrão é consistente com o que foi descrito em outros órgãos: em cérebro, fígado e pulmão, a CC1 tende a ser baixa ou ausente em condições fisiológicas e se upregula em situações patológicas, como após acidente vascular cerebral ou em presença de tumores.
Os autores discutem que em doenças oculares com ruptura da barreira hematorretiniana — como a retinopatia diabética proliferativa (barreira interna) e a degeneração macular relacionada à idade (DMRI) neovascular (barreira externa) — a CC1 poderia se tornar funcionalmente relevante. Na DMRI neovascular, caracterizada por neovascularização coroidal, edema e perda visual severa, tanto células endoteliais quanto células mieloides (microglia residente e macrófagos infiltrantes) são reguladores centrais da progressão da doença — exatamente os dois compartimentos celulares onde CC1 é expressa no olho. Adicionalmente, estudos prévios relatados no texto mostram que CC1 pode ser modulada por citocinas pró-inflamatórias como TNF e está associada a envelhecimento vascular e inflamação crônica, condições centrais nas doenças retinianas degenerativas.
Vale notar que um estudo anterior com modelo de angiogênese patológica durante o desenvolvimento já havia demonstrado que camundongos deficientes em CC1 apresentaram neovascularização retiniana exacerbada e formação aumentada de tufos vasculares, sugerindo que a proteína pode exercer papel protetor em contextos de doença.
Limitações e próximos passos
O estudo foi conduzido exclusivamente em camundongos adultos jovens (6–8 semanas) em condições de homeostase. Não foram realizados experimentos em modelos de doença ocular. Os autores reconhecem que a relevância funcional da CC1 no olho pode emergir apenas sob condições patológicas, o que deverá ser investigado em estudos futuros com modelos de DMRI neovascular, retinopatia diabética ou outros paradigmas de lesão ocular.