Formulação Ayurvédica Chandrodaya Varti Anjana Não Demonstra Toxicidade Ocular Aguda em Coelhos
Contexto
A catarata — opacificação do cristalino que compromete a visão — é a principal causa de cegueira reversível no mundo, afetando mais de 100 milhões de pessoas globalmente, com dezenas de milhões de casos resultando em cegueira. Diante do alto custo da cirurgia e da necessidade de equipamentos especializados, há interesse crescente em abordagens farmacológicas que possam retardar ou reverter a progressão da doença em estágios iniciais.
Nesse cenário, a medicina Ayurvédica utiliza colírios à base de ervas e minerais há séculos. O Chandrodaya Varti Anjana (CVA) é uma dessas formulações herbomineral, descrita no texto clássico Bhaisajya Ratnavali, e prescrita para condições como Timira (visão turva), Kacha (opacidade do cristalino) e Arma (pterígio). Apesar do uso clínico consolidado, a avaliação toxicológica sistemática dessa preparação era praticamente inexistente — lacuna que o presente estudo busca preencher.
Composição e Ingredientes de Atenção
O CVA é composto por uma combinação de ingredientes vegetais e minerais, entre eles Piper nigrum, Piper longum, Terminalia chebula, Acorus calamus, Terminalia bellirica, Saussurea lappa, Convolvulus pluricaulis, leite de cabra (Ajadugdha) e, de especial relevância toxicológica, a Manahshila (dissulfeto de arsênio, As₂S₂) e a Shankhanabhi.
A presença de Manahshila é o principal ponto de atenção: o arsênio é classificado como a substância mais perigosa entre as 20 listadas pela Agency for Toxic Substances and Disease Registry (ATSDR). Já a Shankhanabhi tem potencial descrito de causar irritação, dor, vermelhidão e inflamação ocular. A ausência de dados preclinicos sistematizados para esses componentes aplicados diretamente ao olho tornava a avaliação formal indispensável.
Metodologia
O estudo seguiu as diretrizes OECD 405 para teste de irritação/corrosão ocular aguda, com aprovação do Comitê Institucional de Ética em Pesquisa Animal (IAEC, aprovação n.º NIA/IAEC/2024/90), conduzido no National Institute of Ayurveda, em Jaipur, Índia.
Foram selecionadas três coelhas albinas fêmeas, com 10 a 11 semanas de idade e peso entre 1,2 e 1,8 kg. O protocolo adotou uma estratégia sequencial: primeiro um animal (teste inicial) e, após confirmação da ausência de reações graves, dois animais adicionais (teste confirmatório) — abordagem alinhada ao princípio dos 3Rs (Substituição, Redução e Refinamento) no uso de animais.
A formulação foi triturada em pó fino e uniforme, e uma dose padronizada foi depositada no saco conjuntival do olho direito de cada animal, enquanto o olho esquerdo serviu como controle não tratado. O pH do produto foi medido antes da aplicação e encontrava-se em 4,6, dentro da faixa aceitável. Analgesia preventiva e anestesia tópica foram administradas antes do procedimento.
As avaliações foram realizadas em múltiplos momentos ao longo de 21 dias: 30 minutos, 1 hora, 2 horas, 4 horas, 8 horas, 24 horas, 48 horas, 72 horas, 7 dias, 14 dias e 21 dias após a instilação. Os parâmetros observados foram: reações conjuntivais, corneanas e iridiais, além de quemose.
Resultados
Ao longo de todo o período de observação de 21 dias, nenhum dos três animais apresentou qualquer reação ocular — conjuntival, corneana ou iridial — e não foram detectados sinais de quemose. Todos os escores permaneceram em grau 0 (normal) em todos os momentos avaliados, nos dois olhos tratados e controles.
Tampouco foram observados sinais de toxicidade sistêmica: ausência de tremores, alterações comportamentais, convulsões, perda de peso, desconforto respiratório, diarreia ou mortalidade.
Com base nos critérios do OECD 405, o CVA foi classificado como "não irritante" nas condições experimentais testadas.
Limitações e Perspectivas
Os próprios autores reconhecem que o estudo se restringe à avaliação de toxicidade ocular aguda em modelo animal com número reduzido de animais. Para estabelecer um perfil de segurança definitivo, serão necessários estudos de toxicidade subaguda e crônica, além de ensaios clínicos controlados em humanos. Os resultados atuais oferecem, portanto, um perfil de segurança preliminar que pode embasar futuras avaliações clínicas, mas não substituem a evidência clínica robusta.
Relevância para a Prática Oftalmológica
O interesse nesse tipo de estudo vai além da medicina tradicional: a busca por agentes farmacológicos capazes de retardar a progressão da catarata é um tema ativo na oftalmologia global. Formulações com longa tradição de uso, mas sem avaliação toxicológica formal, representam tanto uma oportunidade quanto um risco — e iniciativas como esta contribuem para aproximar o conhecimento tradicional dos padrões de segurança exigidos pela medicina baseada em evidências.