Comunicação médico-paciente como intervenção clínica: três estudos iluminam burden terapêutico, ansiedade e trauma ocular
Introdução
Três publicações recentes — uma metassíntese qualitativa sobre a experiência de pacientes com degeneração macular relacionada à idade (DMRI) em tratamento com anti-VEGF, um ensaio clínico quase-randomizado sobre educação em saúde multimídia em pacientes com moscas volantes, e uma revisão narrativa sobre fraturas maxilofaciais e trauma ocular no futebol — convergem, sob ângulos distintos, para um mesmo eixo: a qualidade da comunicação e da informação prestada ao paciente é parte integrante do cuidado oftalmológico, e não um acessório. A seguir, analisamos cada fonte em profundidade e conectamos seus achados.
A experiência do paciente com injeções intravítreas de anti-VEGF
A primeira fonte é uma metassíntese de estudos qualitativos cujo objetivo foi sintetizar evidências sobre os encargos terapêuticos e as experiências de vida de pacientes recebendo injeções intravítreas de anti-VEGF para DMRI. Os autores buscaram cinco bases de dados (PubMed, Web of Science, Embase, Cochrane Library e CINAHL) em 20 de maio de 2025, com busca manual complementar, restringindo-se a estudos qualitativos ou de métodos mistos publicados em inglês. A avaliação e a síntese seguiram as ferramentas de apreciação crítica e o método de integração agregativa do Joanna Briggs Institute (JBI), com dois revisores independentes.
Contexto epidemiológico e terapêutico
A DMRI é uma doença degenerativa que afeta a retina, o epitélio pigmentar da retina e a coriocapilar, levando à perda da visão central. Segundo a fonte, é a terceira principal causa de perda visual global, atrás de catarata e erros refrativos não corrigidos, com uma estimativa de 196 milhões de pessoas afetadas em 2020, projetada para 288 milhões em 2040. A prevalência de DMRI tardia aumenta de forma log-linear, com aumento médio de quatro vezes por década após os 50 anos.
A injeção intravítrea de anti-VEGF — incluindo ranibizumabe, aflibercepte e bevacizumabe — demonstrou eficácia ao inibir a atividade do VEGF, suprimindo a formação e o extravasamento de vasos neovasculares. Contudo, o tratamento impõe encargo substancial, pois exige injeções frequentes e de longo prazo. O regime descrito envolve injeções mensais até a estabilização por 3 a 4 meses consecutivos, seguidas de fase de manutenção individualizada (treat and extend ou pro re nata).
Seleção e qualidade dos estudos
A busca inicial identificou 587 registros (585 por bases de dados e 2 por busca manual). Após remoção de 98 duplicatas, 489 artigos passaram por triagem de título e resumo, dos quais 442 foram excluídos. Dos 47 textos completos avaliados, 34 foram excluídos por população inelegível, desenho inadequado, idioma diferente do inglês, indisponibilidade de texto completo ou baixa qualidade metodológica. Restaram 13 estudos qualificados, publicados entre 2010 e 2023, oriundos de 11 países: EUA, Canadá, França, Itália, Alemanha, Espanha, Reino Unido, Austrália, Dinamarca, China e Suécia. O Reino Unido contribuiu com cinco estudos.
Na apreciação de qualidade pela checklist do JBI (10 itens), estudos que atingiram 7 ou mais critérios foram classificados como evidência de alta qualidade. As pontuações variaram de 70% a 100%, com o estudo de Thinggaard et al. alcançando 100%.
Quatro temas centrais
Os achados foram organizados em quatro temas: barreiras ao tratamento e fontes de ansiedade; estratégias de enfrentamento e mecanismos de adaptação; impulsionadores da adesão ao tratamento; e o impacto do engajamento médico-paciente.
Barreiras e ansiedade. Muitos pacientes relatam ansiedade quanto ao procedimento de injeção, sobretudo nas primeiras exposições, quando há incerteza sobre o que esperar. A dor e o desconforto associados intensificam essa apreensão; em alguns casos, desconforto significativo ou respostas insatisfatórias levam à descontinuação precoce. No plano psicológico e cognitivo, parte dos pacientes demonstra incerteza quanto à progressão da doença e ao prognóstico, e outros aderem passivamente por compreensão insuficiente de sua condição. Há ainda quem perceba sua acuidade atual como adequada e mantenha expectativas reservadas quanto ao benefício. Períodos prolongados de espera antes das injeções, os custos elevados e a sobrecarga dos cuidadores constituem barreiras adicionais, com relatos de mudanças no estilo de vida em torno do tratamento.
Enfrentamento e adaptação. No enfrentamento positivo, os pacientes desenvolvem padrões previsíveis com a repetição do tratamento ("você se acostuma com elas depois de um tempo") e modificam expectativas rumo a uma aceitação realista. No enfrentamento negativo, abandonam hobbies e atividades sociais por causa da doença ou do tratamento.
Adesão. Atitudes positivas e compreensão realista (entender que o tratamento desacelera a deterioração, e não a cura) favorecem a adesão. A qualidade da relação médico-paciente afeta significativamente a atitude terapêutica. Sistemas de apoio externo — envolvimento familiar, grupos de pares e cobertura de seguro de saúde — funcionam como motivadores. A acessibilidade do serviço de saúde também eleva a aceitação dos regimes.
Engajamento médico-paciente. A confiança terapêutica reforça a confiança do paciente na eficácia do tratamento. Em contrapartida, indiferença dos profissionais ou comunicação inadequada agrava emoções negativas, e deficiências na competência clínica levam a experiências negativas de cuidado.
Discussão e implicações
Diferentemente de revisões mais amplas que incluem pacientes em todos os estágios de tratamento, esta metassíntese, focada exclusivamente em quem recebe injeções intravítreas repetidas, sugere que esses pacientes vivenciam intensidade maior de "burnout" psicológico, derivado do próprio processo de tratamento. Os autores destacam medidas práticas, como uso racional de anestésicos e exercícios de respiração profunda, capazes de aliviar dor e medo e melhorar a adesão e a satisfação. A fonte observa ainda que cerca de um quarto dos pacientes descontinua o tratamento por causa desses encargos. A abordagem mais promissora para reduzir o ônus, segundo os autores, envolve desenvolver tratamentos que exijam menos injeções, melhorando duração e eficácia do fármaco, combinados a soluções que enfrentem barreiras sistêmicas como transporte e acesso ao cuidado.
Entre as limitações, os autores apontam a restrição a estudos em inglês, predominantemente de países de alta renda, criando viés sistemático, além da falta de autorreflexão da maioria dos estudos sobre a influência dos contextos culturais dos pesquisadores.
Educação multimídia para aliviar ansiedade em moscas volantes
A segunda fonte é um estudo prospectivo quase-randomizado controlado que avaliou a eficácia da educação em saúde multimídia estruturada na redução da ansiedade entre pacientes com moscas volantes (vitreous floaters, VF) e buscou identificar fatores associados à gravidade da ansiedade.
Desenho e métodos
O estudo foi conduzido no Terceiro Hospital Afiliado da Universidade Médica de Nanjing, entre dezembro de 2023 e abril de 2025, registrado no ClinicalTrials.gov. Pacientes com VF sintomáticas foram alocados, conforme a semana de calendário, em um grupo de educação multimídia aprimorada (semanas ímpares) ou em um grupo de cuidado padrão com aconselhamento verbal de rotina (semanas pares). A ansiedade foi avaliada pelo State-Trait Anxiety Inventory (STAI-state) e a qualidade de vida relacionada à visão (VRQoL) pelo National Eye Institute Visual Function Questionnaire-25 (NEI VFQ-25), no baseline e aos 3 meses.
A educação multimídia foi conduzida por um único especialista vitreorretiniano com mais de 10 anos de experiência, em sessão didática de 30 minutos com apresentações em PowerPoint cobrindo etiopatogenia, sintomatologia, modalidades terapêuticas (incluindo as controvérsias sobre a eficácia da vitreólise por laser Nd:YAG) e a necessidade de seguimento, com alerta para sinais de alarme. O grupo de aconselhamento verbal recebeu orientação pós-exame de rotina de aproximadamente 5 a 10 minutos.
Vale notar que, segundo a fonte, as moscas volantes podem estar presentes em até 77% da população. A observação permanece a abordagem primária de manejo, apesar dos avanços em terapias minimamente invasivas.
Resultados
Um total de 309 participantes completou o estudo (157 no grupo intervenção e 152 no controle). Ambos os grupos apresentaram reduções significativas nos escores STAI-state; contudo, a redução foi significativamente maior no grupo multimídia (ΔSTAI-state: −5,22 vs. −1,09), com diferença entre grupos de −4,13 (IC 95%: −5,21 a −3,05, p < 0,001). A análise de covariância (ANCOVA), ajustando para o baseline, confirmou níveis de ansiedade de seguimento significativamente menores no grupo de intervenção (p < 0,001). Não houve diferenças significativas entre grupos quanto à VRQoL.
Na análise estratificada por escolaridade dentro do grupo intervenção, todos os subgrupos tiveram reduções significativas no STAI-state, mas a redução absoluta foi maior em participantes com maior escolaridade: pacientes com nível superior ou acima tiveram redução significativamente maior do que os de educação primária ou inferior (5,39 ± 5,48 vs. 3,08 ± 6,47, p < 0,05).
Na regressão logística multivariável, fatores como idade mais avançada, maior escolaridade, maior ansiedade-traço e diabetes estiveram independentemente associados a ansiedade moderada a grave. Idade crescente associou-se a maior chance de ansiedade moderada a grave (OR = 1,05 por ano; IC 95%: 1,02–1,08; p = 0,001) e maior escore de ansiedade-traço também (OR = 1,27; IC 95%: 1,19–1,36; p < 0,001).
Interpretação
Os autores argumentam que a ansiedade em pacientes com VF é impulsionada em grande parte pela incerteza e pela má interpretação dos sintomas, com muitos pacientes percebendo as moscas volantes como indício de patologia ocular grave. A educação multimídia integra informação visual, textual e auditiva, tornando o conhecimento médico complexo mais acessível, o que pode aumentar a sensação de controle e reduzir a incerteza.
O achado de que maior escolaridade se associou a maior redução de ansiedade após a intervenção, embora possa parecer contraintuitivo, é explicado pelos autores: indivíduos com maior escolaridade podem ter mais acesso a informação de saúde — inclusive fontes da internet e baseadas em IA — e tendência a superinterpretar ou catastrofizar sintomas benignos, beneficiando-se mais de explicações estruturadas. Os autores destacam que a própria comunicação médico-paciente representa uma forma de intervenção clínica.
Entre as limitações, citam a alocação quase-randomizada por semana de calendário (não randomização individual estrita), a avaliação do baseline após o exame oftalmológico (que pode ter aliviado parte da ansiedade preexistente) e o fato de a intervenção ter sido conduzida por um especialista sênior, cujo efeito pode refletir parcialmente um efeito de autoridade ou confiança.
Trauma maxilofacial e ocular no futebol
A terceira fonte é uma revisão narrativa sobre padrões de lesão em fraturas maxilofaciais e trauma ocular induzidos pelo futebol. A busca, feita na plataforma Ovid sem restrição de idioma ou data e completada em fevereiro de 2026, identificou 139 estudos, dos quais 68 foram incluídos.
Fraturas maxilofaciais
Lesões esportivas respondem por aproximadamente 20% de todas as fraturas maxilofaciais anuais. Na análise da revisão, o zigoma foi o osso maxilofacial mais comumente fraturado no futebol (32,8%), seguido por nasal (28,4%), mandíbula (25,8%), órbita (6,5%), maxila (3,6%) e seio frontal (2,8%). Entre as fraturas mandibulares, o ângulo foi o sítio mais vulnerável, respondendo por 39,2% dos casos.
O mecanismo mais frequente foi a colisão cabeça contra cabeça. Entretanto, embora menos comuns, impactos de braço ou cotovelo tiveram maior probabilidade de resultar em fratura quando ocorreram. Em um estudo, aproximadamente 62% das lesões maxilofaciais relacionadas ao futebol foram atribuídas a impactos de cotovelo no rosto. Gallagher et al. demonstraram que impactos de cotovelo associaram-se mais frequentemente a fraturas mandibulares, enquanto impactos de cabeça resultaram mais em fraturas zigomáticas.
A revisão destaca particularidades clínicas: a fratura zigomática pode produzir achatamento da bochecha, degrau palpável na rima infraorbital ou trismo, sendo frequentemente tratada cirurgicamente (cerca de 83,6% em um estudo retrospectivo). Fraturas nasais podem cursar com epistaxe, obstrução nasal e assimetria, devendo ser reduzidas imediatamente ou em 3 a 10 dias; hematomas septais precisam ser drenados para prevenir necrose avascular da cartilagem nasal. Quanto à mandíbula, a avaliação da via aérea é crítica, pois fraturas múltiplas podem deslocar a mandíbula posteriormente.
Trauma ocular
As lesões oculares no futebol apresentam-se mais frequentemente como contusões e lacerações orbitárias ou palpebrais (37,1%) e hifemas (19,5%), tendo o impacto direto da bola como causa principal. Meninos (60,4%–69,5%) estiveram em maior risco do que meninas para trauma ocular relacionado a esportes com bola, com o futebol como o esporte mais frequentemente implicado.
A revisão explica que, comparada às bolas de outros esportes, a bola de futebol demonstra menor penetração orbital, mas permanece em contato com o espaço orbital por duração substancialmente maior — 2,5 a 10 vezes mais —, permitindo maior transmissão de forças ao segmento posterior. Postula-se um "efeito de sucção" da bola sobre o conteúdo orbital ao rebater. Tamanho e pressão de inflação da bola não afetam o risco de penetração orbital.
Um ponto clínico crucial: em um estudo observacional prospectivo de pacientes com suspeita de trauma ocular relacionado ao futebol, 42,2% daqueles com acuidade visual de 20/40 ou melhor apresentavam lesões vitreorretinianas. Assim, acuidade visual normal e ausência de sinais externos não excluem envolvimento do segmento posterior. As lesões localizavam-se mais comumente no quadrante superotemporal da retina, com a comoção retiniana (commotio retinae) como achado oftalmoscópico mais frequente, sobretudo em pacientes pediátricos — uma série de casos relatou comoção retiniana em 50% dos pacientes afetados por lesões induzidas pela bola. A tomografia de coerência óptica (OCT) é apontada como valiosa para detectar rupturas de coroide, sinais de oclusão da artéria central da retina e buracos maculares traumáticos; uma série de casos relatou que 30% dos pacientes encaminhados por lesões retinianas relacionadas à bola tinham buracos maculares traumáticos.
Pacientes pediátricos e proteção
Pacientes pediátricos parecem mais suscetíveis a lesões oculares graves do que adultos. Uma possível explicação é a rima orbital subdesenvolvida: ao contrário do globo e da órbita (que atingem tamanho adulto por volta dos 7 anos), a rima orbital sofre crescimento e maturação significativos durante a puberdade. Nos EUA, lesões oculares relacionadas ao futebol resultam em mais visitas a emergências entre pacientes com ≤ 18 anos do que entre adultos (68,2% vs. 31,8%). Esses achados sustentam o uso de proteção ocular em crianças pré-púberes, particularmente lentes de policarbonato, que demonstraram reduzir o impacto retiniano das lesões oculares.
A revisão recomenda que todos os jogadores com suspeita de lesão ocular, particularmente por impacto de bola, sejam submetidos a exame de fundoscopia em 24 a 48 horas, dado que lesões do segmento posterior podem estar presentes apesar de acuidade visual normal.
Limitações
Os autores reconhecem que as tendências baseiam-se em grande parte em pequenas séries de casos, refletindo a baixa qualidade da evidência disponível. Alguns estudos incluídos categorizaram lesões como "fraturas múltiplas" sem especificar tipos, ou as relataram como complexo maxila-zigoma-órbita combinado. Muitos estudos são datados e refletem períodos em que a participação no futebol era predominantemente masculina, limitando a generalização.
Síntese: a comunicação como cuidado
Apesar de tratarem de cenários clínicos distintos, as três fontes compartilham uma mensagem prática. Na DMRI, a metassíntese mostra que a qualidade da relação médico-paciente afeta a atitude terapêutica e a adesão, e que comunicação inadequada agrava emoções negativas. No estudo de moscas volantes, a educação multimídia estruturada superou o aconselhamento verbal de rotina na redução da ansiedade, reforçando que o formato, a profundidade e a clareza da informação importam tanto quanto a própria decisão clínica. Na revisão sobre futebol, a ênfase recai sobre a comunicação de risco e a triagem: orientar jogadores e responsáveis sobre proteção ocular e garantir fundoscopia mesmo com visão normal são intervenções de baixo custo com potencial de prevenir sequelas permanentes.
Para o oftalmologista brasileiro, as implicações são convergentes: integrar suporte psicológico, educação estruturada do paciente e otimização das vias de tratamento na DMRI; reconhecer a ansiedade em condições benignas como as moscas volantes como alvo legítimo de intervenção comunicacional; e manter alto índice de suspeição para lesões do segmento posterior após trauma por bola, independentemente da acuidade visual. As três fontes, contudo, partilham a limitação de evidência heterogênea ou de baixa qualidade, justificando cautela na generalização e a necessidade de estudos mais robustos.
Fontes
- Patient Experiences of Intravitreal Anti-Vascular Endothelial Growth Factor Injections for Age-Related Macular Degeneration: A Meta-Synthesis of Qualitative Studies
- Multimedia health education to alleviate anxiety in patients with vitreous floaters
- Injury Patterns in Soccer-Induced Maxillofacial Fractures and Ocular Trauma: A Narrative Review