Eletrorretinografia como biomarcador ocular do declínio cognitivo: protocolo de revisão de escopo em adultos com 50 anos ou mais
Contexto e motivação
O envelhecimento populacional acelerado e o aumento das doenças cardiometabólicas têm elevado a prevalência de transtornos neurodegenerativos e declínio cognitivo em escala global. Estima-se que o número de casos de demência salte de cerca de 57 milhões em 2019 para mais de 150 milhões em 2050, segundo projeções descritas no protocolo. Diante disso, cresce a demanda por biomarcadores acessíveis, não invasivos e de baixo custo que permitam detecção precoce — especialmente em populações marginalizadas com acesso restrito a serviços neurológicos especializados.
Neuroimagem, dosagens de líquor e biomarcadores sanguíneos já demonstram utilidade diagnóstica e prognóstica, mas exigem infraestrutura especializada, podem ser invasivos e têm custo elevado. É nesse cenário que a eletrorretinografia (ERG) emerge como alternativa promissora.
Por que a retina?
A retina é um prolongamento embriológico do cérebro e integra o sistema nervoso central (SNC), compartilhando propriedades estruturais e funcionais com o tecido cortical. O eletrorretinograma registra de forma objetiva a atividade eletrofisiológica retiniana — captando sinais que percorrem fotorreceptores, células bipolares, células ganglionares e circuitos da retina interna. Como esses elementos espelham características centrais da organização sináptica do SNC, o ERG pode funcionar como um indicador funcional da integridade cerebral mais ampla.
Estudos preliminares relatam alterações no ERG em diversas condições neuropsiquiátricas e neurodegenerativas, sugerindo que anomalias como redução de amplitudes, aumento de tempos implícitos e alterações nos potenciais oscilatórios podem preceder sintomas clínicos evidentes de comprometimento cognitivo.
O problema: evidências fragmentadas
Apesar do interesse crescente, o campo ainda carece de síntese robusta. Os estudos disponíveis divergem amplamente quanto às modalidades de ERG empregadas (ERG de campo total — ffERG; ERG de padrão — pERG; ERG multifocal — mfERG), aos parâmetros analisados (amplitude das ondas a e b, tempos implícitos, potenciais oscilatórios, resposta negativa fotópica), aos instrumentos de avaliação cognitiva utilizados e aos critérios diagnósticos adotados. Acrescentam-se ainda diferenças nos desenhos de estudo, nas características das amostras e no manejo de fatores de confusão como doenças oculares relacionadas à idade, condições vasculares sistêmicas e efeitos de medicações. Essa fragmentação torna difícil extrair conclusões firmes sobre a utilidade clínica do ERG na avaliação cognitiva.
Um avanço recente relevante é o surgimento de dispositivos de ERG portáteis — com destaque para o RETeval — que possibilitam avaliação rápida e não invasiva fora de laboratórios especializados, ampliando o potencial de uso em atenção primária e rastreamentos comunitários.
O protocolo de revisão de escopo
Para mapear sistematicamente esse campo, pesquisadores registraram um protocolo de revisão de escopo no Open Science Framework, elaborado conforme as diretrizes PRISMA-P e alinhado à metodologia de Arksey e O'Malley. A escolha pela revisão de escopo — em vez de revisão sistemática tradicional ou metanálise — justifica-se pela heterogeneidade esperada dos dados e pela necessidade de mapear um campo amplo e em evolução antes de estreitar perguntas analíticas.
População e critérios de inclusão
Serão incluídos estudos com adultos a partir de 50 anos, abrangendo indivíduos cognitivamente intactos, aqueles em risco de declínio e pessoas com diagnóstico de comprometimento cognitivo leve (MCI) ou demência relacionada à doença de Alzheimer. A avaliação cognitiva deverá ter sido realizada por instrumentos validados — como MMSE, MoCA, CANTAB ou Escala de Memória de Wechsler — ou por critérios diagnósticos estabelecidos (DSM, CID ou framework NIA-AA).
Modalidades de ERG e parâmetros
Qualquer modalidade de ERG (ffERG, pERG ou mfERG) será elegível, desde que o estudo relate parâmetros quantitativos ou qualitativos de função retiniana — amplitudes, tempos de latência, morfologia de ondas — e os relacione ao desempenho ou status cognitivo.
Fontes e estratégia de busca
As buscas serão conduzidas em MEDLINE (PubMed), Embase, Web of Science, Scopus, PsycINFO, Google Scholar e CENTRAL, sem restrição de data. A estratégia combina vocabulário controlado (MeSH e Emtree) com palavras-chave em linguagem livre, organizados em torno de três eixos: população (declínio/comprometimento cognitivo, demência, Alzheimer), conceito (eletrorretinografia, ERG, eletrofisiologia retiniana) e contexto (ambientes clínicos, comunitários e hospitalares). Os registros serão gerenciados no EndNote 2025 e triados via plataforma Covidence por três revisores independentes.
Objetivos específicos
O protocolo detalha cinco objetivos complementares:
- Caracterizar modalidades de ERG, protocolos de registro e parâmetros retinianos mais avaliados.
- Identificar as abordagens de avaliação cognitiva, domínios investigados e critérios de classificação.
- Examinar fontes de heterogeneidade metodológica, incluindo manejo de comorbidades oculares e sistêmicas.
- Sintetizar as associações entre parâmetros do ERG — amplitudes, latências, potenciais oscilatórios e resposta negativa fotópica — e desfechos cognitivos, tanto em estudos transversais quanto longitudinais.
- Identificar lacunas de evidência, inconsistências metodológicas e caminhos prioritários para pesquisa futura, incluindo a integração do ERG com outros biomarcadores como neuroimagem e marcadores em fluidos biológicos.
Síntese dos dados
Dada a heterogeneidade esperada, não serão geradas estimativas meta-analíticas agrupadas. A síntese seguirá o framework Synthesis Without Meta-analysis (SWiM), organizando os estudos por modalidade de ERG, morfologia de onda, características populacionais e desenho de estudo. As associações ERG–cognição serão categorizadas por direção do efeito (positiva, negativa, nula ou mista), significância estatística e tamanho de efeito quando disponíveis. Evidências longitudinais serão analisadas separadamente para avaliar se parâmetros específicos do ERG têm utilidade preditiva para o declínio cognitivo.
Implicações clínicas e para a pesquisa
Os autores destacam que o ERG, especialmente com dispositivos portáteis, pode viabilizar rastreamentos em larga escala em contextos de atenção primária e em populações com acesso limitado a centros neurológicos. No entanto, o protocolo reconhece que conclusões sobre acurácia diagnóstica ou efetividade clínica serão necessariamente cautelosas, dada a ausência de avaliação formal de risco de viés em revisões de escopo. O principal produto esperado é uma base consolidada que oriente futuras revisões sistemáticas, esforços de padronização metodológica e estudos longitudinais multimodais.