Galcanezumabe reduz fotofobia ictal e incapacidade em pacientes com enxaqueca: achados com UPSIS-12
Contexto
A fotofobia é reconhecida como o sintoma mais incômodo da enxaqueca por parcela expressiva dos pacientes, superando náusea e fonofobia em estudos de mundo real. Apesar disso, a avaliação sistemática desse desfecho em ensaios clínicos e estudos observacionais permanece limitada pela escassez de instrumentos validados. Um estudo retrospectivo turco publicado recentemente investigou, pela primeira vez com uso da escala UPSIS-12 (Utah Photophobia Symptom Impact Scale–12), o impacto do galcanezumabe — anticorpo monoclonal anti-CGRP — sobre a fotofobia em pacientes com enxaqueca episódica (EE) e crônica (EC).
Desenho do estudo
O trabalho incluiu pacientes entre 18 e 65 anos com diagnóstico de enxaqueca conforme critérios da ICHD-3, acompanhados em um centro terciário de cefaleia. O protocolo de tratamento consistiu em dose de ataque de 240 mg de galcanezumabe seguida de doses mensais de 120 mg por três meses. Os participantes preencheram diários de cefaleia e uma bateria de instrumentos validados no início do estudo e em cada visita mensal, entre eles o UPSIS-12, a Allodynia Symptom Checklist (ASC-12), o Beck Depression Inventory (BDI), o Beck Anxiety Inventory (BAI), o HIT-6 e o MIDAS. Dos 77 pacientes recrutados, 47 completaram todas as visitas e foram incluídos na análise final; a maioria era do sexo feminino, com média de idade de aproximadamente 40 anos, e cerca de dois terços preenchiam critérios para EC.
Desfechos de cefaleia
O número de dias mensais de cefaleia caiu de forma expressiva ao longo do seguimento (p<0,001), com redução mediana superior a 70% até o terceiro mês. Da mesma forma, os dias mensais de enxaqueca diminuíram em cerca de 80% no período. Com base nessa redução, 74,5% dos pacientes foram classificados como respondedores (≥50% de redução nos dias mensais de cefaleia). A intensidade das crises, a duração dos ataques com e sem medicação de resgate, e o uso de analgésicos específicos e não específicos também diminuíram significativamente — os triptanos e ergotamínicos chegaram a mediana zero em todos os meses de seguimento, o que tem implicações relevantes para a redução da cefaleia por uso excessivo de medicamentos.
Fotofobia: ictal versus interictal
Os escores do UPSIS-12 reduziram significativamente ao longo das quatro visitas (p<0,001), com melhora percentual mediana em torno de 22% do início ao terceiro mês. A redução foi mais pronunciada entre a primeira e a segunda visita de seguimento, seguida de estabilização.
Ao analisar separadamente a fotofobia ictal (durante as crises) e a interictal (nos períodos livres de dor), os autores encontraram um contraste importante: a fotofobia ictal reduziu de forma significativa em todos os pontos de seguimento (p<0,001), enquanto a fotofobia interictal não apresentou mudança estatisticamente significativa. Essa dissociação sugere que os dois fenômenos têm substratos fisiopatológicos distintos. Os autores propõem que a fotofobia ictal seja mediada por uma via sensível ao CGRP que envolve células ganglionares retinianas fotossensíveis intrínsecas, tálamo posterior e redes trigeminovasculares — e que, portanto, responde à inibição do CGRP. Já a fotofobia interictal estaria mais ligada a hiperexcitabilidade cortical persistente e alterações no processamento talamocortical, menos responsivas à inibição de curto prazo do CGRP.
Um achado relevante foi que os respondedores ao tratamento apresentaram redução significativamente maior na fotofobia ictal do que os não respondedores (p=0,010), enquanto as pontuações basais do UPSIS-12 e os níveis de fotofobia ictal e interictal no início do estudo não diferiram entre os grupos. Isso indica que a melhora na fotofobia ictal acompanha — mas não prediz — a resposta ao tratamento.
Os autores também destacam que escalas de Likert de item único subestimam a carga da fotofobia: enquanto o UPSIS-12 captou melhora significativa, os pacientes não relataram melhora na fotofobia interictal pela escala Likert isolada. Isso reforça a necessidade de instrumentos multidimensionais para avaliar esse desfecho de forma abrangente.
Outros sintomas sensoriais
Além da fotofobia, fonofobia ictal e osmofobia ictal também melhoraram significativamente com o tratamento. A alodinia cutânea, avaliada pelo ASC-12, apresentou resolução quase completa, com escores caindo de mediana 4 no início para 0 em todos os meses de seguimento (p<0,001). Em contrapartida, os sintomas sensoriais interictais — fonofobia e osmofobia entre as crises — não mostraram mudanças significativas consistentes, reforçando o padrão observado para a fotofobia interictal.
Incapacidade e saúde mental
Os escores de incapacidade pelo HIT-6 e pelo MIDAS diminuíram marcadamente, com a maior parte da melhora ocorrendo já no primeiro mês. A regressão multivariável demonstrou que a redução no HIT-6 foi o único preditor independente da melhora no UPSIS-12 (β=0,35; p=0,017), sugerindo que o alívio da sensibilidade à luz acompanha a recuperação funcional geral.
Os escores de depressão (BDI) e ansiedade (BAI) também melhoraram progressivamente ao longo dos três meses (p<0,001 para ambos). Ao final do seguimento, a maioria dos pacientes havia atingido níveis mínimos de sintomas depressivos e ansiosos.
Segurança
O tratamento foi bem tolerado. Os eventos adversos mais frequentes foram constipação e reações leves no local da injeção. Nenhum evento adverso grave foi registrado, embora nove pacientes tenham descontinuado o tratamento por efeitos adversos ao longo do estudo.
Limitações
Os próprios autores reconhecem restrições importantes: seguimento de apenas três meses, amostra reduzida, ausência de grupo controle, caráter retrospectivo e alta proporção de pacientes com EC — o que pode dificultar a avaliação da fotofobia interictal pela escassez de dias livres de cefaleia nessa população. As análises de subgrupo entre respondedores e não respondedores devem ser interpretadas como exploratórias.
Perspectivas
O estudo posiciona a fotofobia — especialmente a ictal — como um desfecho tratável e mensurável na profilaxia da enxaqueca com anticorpos anti-CGRP. A adoção sistemática de ferramentas como o UPSIS-12 em estudos futuros, com coortes maiores e seguimento prolongado, pode ajudar a elucidar os mecanismos da fotofobia interictal persistente e sua resposta a diferentes estratégias preventivas.