Inibidores de CGRP associados a menor risco de glaucoma em pacientes com enxaqueca
Contexto
A relação entre enxaqueca e glaucoma já é conhecida na literatura: pacientes com enxaqueca apresentam risco aumentado de desenvolver a doença. Com a chegada dos inibidores do peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRPi) como opção preventiva para enxaqueca, pesquisadores passaram a investigar se essa classe terapêutica poderia também influenciar o risco de glaucoma.
O estudo
Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo multinacional que avaliou adultos diagnosticados com enxaqueca e em uso de medicações preventivas entre 2018 e 2024. Os participantes foram divididos em dois grupos: aqueles que usaram CGRPi (incluindo erenumabe, fremanezumabe, galcanezumabe, eptinezumabe, atogepanto e rimegepanto) e aqueles que utilizaram outros preventivos convencionais, como topiramato, valproato, betabloqueadores, inibidores do sistema renina-angiotensina e antidepressivos. O pareamento por escore de propensão foi feito na proporção 1:1, e os participantes foram acompanhados por até três anos para monitorar o surgimento de glaucoma incidente. Ao todo, mais de 73 mil indivíduos compuseram a análise final.
Resultados principais
Comparados aos usuários de preventivos não-CGRPi, os pacientes em uso de CGRPi apresentaram risco significativamente menor de desenvolver glaucoma ao longo do seguimento. A redução de risco foi consistente também nas comparações individuais com a maioria dos medicamentos do grupo controle, incluindo topiramato, valproato, propranolol, metoprolol, lisinopril, amitriptilina e venlafaxina.
Ao estratificar por tipo de CGRPi, apenas os usuários de anticorpos monoclonais anti-CGRP demonstraram redução estatisticamente significativa do risco em relação ao grupo não-CGRPi, enquanto os gepants não atingiram esse limiar de forma isolada.
O efeito protetor foi observado em subgrupos como adultos mais velhos, mulheres e pacientes com enxaqueca crônica ou sem aura.
Classificação e limitações
Os próprios autores classificam o trabalho como um estudo de Classe II de evidência. Por se tratar de um delineamento retrospectivo observacional, causalidade direta não pode ser estabelecida. Variáveis de confusão residuais, diferenças no acompanhamento oftalmológico entre os grupos e a ausência de dados sobre pressão intraocular ou morfologia do nervo óptico são limitações inerentes ao desenho.
Implicações para a prática
Os achados sugerem que, em pacientes com enxaqueca que necessitam de tratamento preventivo, a escolha por CGRPi — em especial os anticorpos monoclonais — pode oferecer um benefício adicional ao reduzir o risco de glaucoma incidente. Para o oftalmologista, esses dados reforçam a importância do trabalho multidisciplinar com neurologistas no manejo de pacientes com enxaqueca, especialmente naqueles com fatores de risco para glaucoma.