Intervalo entre consultas como alavanca de gestão: como pequenos ajustes no seguimento de retinopatia diabética podem reduzir centenas de agendamentos por ano
O problema: descompasso entre demanda e capacidade
Serviços de oftalmologia ambulatorial enfrentam pressão crescente de demanda, e atrasos no seguimento podem resultar em perda visual evitável. Um estudo publicado recentemente propõe que o problema não é simplesmente falta de capacidade, mas sim um descompasso entre demanda e capacidade — uma distinção que muda a forma como soluções devem ser buscadas.
Para abordar essa questão, os autores desenvolveram um framework generalizável que quantifica como a escolha do intervalo de retorno influencia diretamente o volume de consultas, utilizando a retinopatia diabética como caso-modelo.
A estrutura do modelo: três variáveis em equilíbrio
O agendamento de seguimento foi formulado como um trade-off triplo entre:
- Demanda por consultas — quantos atendimentos são gerados ao longo do tempo;
- Atraso na detecção de doenças — o risco de uma condição progredir sem ser identificada;
- Risco de progressão da doença — a probabilidade clínica de agravamento no período considerado.
Para estimar o risco de progressão para retinopatia diabética proliferativa (RDP), os pesquisadores utilizaram dados do Early Treatment Diabetic Retinopathy Study (ETDRS). Como não havia dados intermediários mês a mês, o risco cumulativo de RDP foi interpolado com um modelo de hazard constante — uma abordagem que assume risco instantâneo uniforme ao longo do tempo e oferece transparência nas estimativas em intervalos mais curtos.
Resultados: impacto expressivo de mudanças modestas
A aplicação do framework ao serviço de retinopatia diabética de um hospital geral distrital do Reino Unido revelou um achado de grande relevância operacional: pequenas alterações no intervalo de retorno geraram grandes variações na demanda.
Especificamente, aumentar o intervalo médio de retorno de 4,7 para 6,2 meses resultou em uma redução estimada de 700 consultas por 1.000 pacientes ao ano. Os autores também aplicaram o modelo de forma ilustrativa a serviços de injeções intravítreas e glaucoma, observando efeitos semelhantes.
Implicações para a prática clínica
O framework proposto não substitui a expansão de capacidade, mas a complementa. Ao tornar explícito o equilíbrio entre eficiência operacional e segurança clínica, ele oferece uma base mais racional para decisões sobre protocolos de seguimento — decisões que, muitas vezes, são tomadas por tradição ou conveniência, sem quantificação do impacto real.
A abordagem é descrita como generalizável a outras doenças crônicas, sugerindo que o mesmo raciocínio pode ser aplicado a condições como glaucoma, degeneração macular e retinopatia diabética em diferentes estágios.