LEADS: estudo longitudinal investiga saúde ocular e envelhecimento em idosos no sul da Índia
Contexto e lacunas que motivaram o estudo
A perda visual é altamente prevalente entre idosos na Índia, mas dados sobre sua incidência e fatores de risco nessa faixa etária são escassos. Estudos populacionais conduzidos anteriormente no país — como o Andhra Pradesh Eye Disease Study (APEDS), o Aravind Comprehensive Eye Study e o Central India Eye and Medical Study — tinham desenho transversal e focavam principalmente na saúde ocular, deixando de lado comorbidades, quedas, perda auditiva e o impacto de intervenções como cirurgia de catarata e correção refrativa. O estudo Hyderabad Ocular Morbidity in Elderly Study (HOMES), por sua vez, era restrito a idosos em regime residencial urbano, com amostra pequena, o que limitou a generalização dos achados.
Além disso, dados de outros países não podem ser diretamente aplicados ao contexto indiano, dadas as diferenças socioeconômicas, culturais e de políticas públicas. Com a população idosa da Índia projetada para atingir 323 milhões até 2050, essa lacuna representa um obstáculo relevante para o planejamento de serviços de saúde ocular.
O que é o LEADS
O Longitudinal Eye Health, Ageing and Disability Study (LEADS) é um estudo epidemiológico de base populacional, longitudinal, que acompanha indivíduos com 60 anos ou mais residentes nos estados de Andhra Pradesh e Telangana, no sul da Índia — uma população combinada de aproximadamente 92 milhões de habitantes. Sete distritos de três regiões foram selecionados para representar diferentes perfis socioeconômicos: áreas costeiras desenvolvidas, regiões áridas e zonas rurais tribais.
Os objetivos do estudo são: (a) determinar prevalência, causas e fatores de risco da deficiência visual (DV); (b) investigar associações entre DV e condições sistêmicas, desempenho físico, audição, cognição, depressão e conectividade social; (c) avaliar o impacto de intervenções oculares — cirurgia de catarata e correção refrativa — sobre cognição, quedas, qualidade de vida e outras dimensões da saúde; e (d) estimar a incidência anual de DV e seus fatores de risco.
Metodologia
Amostragem e tamanho amostral
Foi adotada amostragem aleatória por conglomerados em dois estágios. A amostra necessária foi estimada com base em estudos anteriores da região que reportaram incidência anual de DV em idosos. Utilizando uma incidência conservadora, precisão de 20%, intervalo de confiança de 95%, efeito de desenho para clusters de 60 participantes e taxa de não-resposta de 15%, chegou-se a uma necessidade de 6.000 participantes na linha de base. Considerando perda estimada de 20% no seguimento, o tamanho amostral final é de 7.200 indivíduos, distribuídos em 120 clusters.
Ondas de coleta
Duas ondas de exame estão planejadas com intervalo de 18 a 24 meses (onda I e onda II), com uma terceira onda prevista para o futuro. A coleta da onda I teve início em junho de 2024 e está prevista para ser concluída em maio de 2027.
Componentes da avaliação
O protocolo combina um componente não clínico (entrevistas estruturadas) e um componente clínico (exame oftalmológico completo), sempre nessa ordem.
Avaliação não clínica inclui:
- Dados sociodemográficos, histórico sistêmico e uso de medicamentos
- Cognição (Mini Exame do Estado Mental adaptado para populações rurais)
- Depressão (PHQ-9)
- Audição (questionário e teste do sussurro)
- Desempenho físico (Short Physical Performance Battery — SPPB, com velocidade de marcha, teste de sentar e levantar e equilíbrio)
- Medo de quedas e histórico de quedas
- Qualidade de vida (EQ-5D-5L), bem-estar (WHO Well-Being Index) e satisfação com a vida
- Atividades de vida diária e instrumentais
- Nutrição, saúde bucal, padrão de sono e atividade física
Exame clínico ocular inclui:
- Acuidade visual para longe e perto (tabelas logMAR), com e sem correção
- Sensibilidade ao contraste, estereopsis e visão de cores
- Biomicroscopia com lâmpada de fenda portátil e imagem do segmento anterior
- Refração manual e automatizada
- Tonometria de não contato
- Retinografia com câmera de fundo não midriática com algoritmo de inteligência artificial embarcado para detecção de glaucoma, degeneração macular relacionada à idade e retinopatia diabética
- Avaliação do olho seco (questionário OSDI, teste de Schirmer e tempo de ruptura do filme lacrimal)
As equipes de campo (ao menos um optometrista, um técnico de visão e três investigadores por equipe) instalam clínicas provisórias em centros de saúde primários ou instalações governamentais próximas às comunidades. Idosos acamados recebem visita domiciliar com protocolo reduzido.
Intervenções e seguimento
Após o exame clínico, óculos são fornecidos gratuitamente a todos os participantes que deles necessitem, com entrega domiciliar em até duas semanas. A adesão ao uso dos óculos é monitorada semestralmente por telefone ou visita presencial. Participantes com DV não refrativa são encaminhados ao L V Prasad Eye Institute sem custo; transporte gratuito é oferecido quando necessário. Visitas anuais presenciais são realizadas para monitorar a utilização dos serviços e registrar óbitos por meio de questionário de autópsia verbal.
Definições operacionais principais
- DV à distância: acuidade visual de apresentação pior que 6/12 no melhor olho (critério OMS), subdividida em leve, moderada, grave e cegueira
- DV evitável: causada por catarata, erros refrativos não corrigidos ou opacificação de cápsula posterior
- Incidência de DV: casos novos entre participantes sem DV na linha de base
- Progressão de DV: piora de ao menos uma categoria OMS entre onda I e onda II
- DV para perto: acuidade de perto pior que N6 no melhor olho, sem DV à distância
Relevância e perspectivas
O LEADS é descrito como o primeiro estudo abrangente de saúde ocular a investigar simultaneamente incidência de DV, impacto sobre saúde e bem-estar e efeito de intervenções em idosos nos estados de Andhra Pradesh e Telangana. Seus autores destacam que o protocolo pode ser replicado em outros países de baixa e média renda. O estudo também pretende complementar iniciativas mais amplas de pesquisa sobre envelhecimento na Índia, como o Longitudinal Ageing Study in India (LASI), posicionando o cuidado ocular como porta de entrada para uma atenção à saúde mais integral ao idoso.