Optometristas no Reino Unido realizam procedimentos a laser de forma autônoma, mas diretrizes nacionais ainda não acompanham a realidade clínica
Contexto
No Reino Unido, o papel do optometrista evoluiu consideravelmente nas últimas décadas, ultrapassando a refração e o exame de vista para incluir diagnóstico e tratamento clínico ocular. Uma das fronteiras mais recentes dessa expansão é a realização de procedimentos a laser dentro do serviço hospitalar de oftalmologia. Para mapear como essa prática ocorre na prática — em termos de escopo, autonomia e formação —, pesquisadores conduziram um levantamento nacional com optometristas hospitalares que já executam esse tipo de procedimento.
Metodologia
O estudo adotou delineamento descritivo e transversal. Durante seis semanas, entre maio e junho de 2025, um questionário eletrônico foi enviado a optometristas hospitalares cadastrados em um banco de dados centralizado do Reino Unido, além de ser distribuído por canais profissionais estabelecidos. O instrumento foi dividido em dois blocos: o primeiro coletou dados demográficos; o segundo investigou aplicação clínica e trajetória de treinamento. Ao todo, 75 optometristas responderam.
Quais procedimentos são realizados e com que frequência?
Os procedimentos mais comuns relatados pelos participantes foram a capsulotomia com Nd:YAG, a trabeculoplastia seletiva a laser (SLT) e a iridotomia periférica a laser — todos inseridos, predominantemente, no cuidado de catarata e glaucoma. Em média, cada profissional dedicava cerca de cinco horas semanais à realização de procedimentos a laser, com variação considerável entre os respondentes.
Autonomia e independência na prática
Um dos achados mais expressivos do levantamento é que mais de 90% dos optometristas relataram atuar de forma independente e autônoma ao realizar os procedimentos. A análise multivariável por regressão logística não identificou fatores independentes associados ao escopo de prática ou ao grau de autonomia, sugerindo que essa autonomia é amplamente distribuída entre os respondentes, independentemente de características individuais específicas.
Formação e experiência
Noventa por cento dos participantes declararam ter realizado treinamento interno (dentro da própria instituição hospitalar). O estudo identificou uma associação estatisticamente significativa entre o número de anos de qualificação do profissional e o tempo em que ele já vinha realizando procedimentos a laser (teste exato de Fisher, p < 0,01), o que indica que profissionais mais experientes tendem a ter incorporado essas atividades há mais tempo em sua prática.
Lacuna regulatória
Apesar de a autonomia ser amplamente praticada, os autores concluem que as diretrizes clínicas nacionais britânicas ainda não refletem essa realidade. A recomendação explícita do estudo é que essas diretrizes sejam revisadas e atualizadas para incorporar o papel autônomo dos optometristas hospitalares na realização de procedimentos a laser.
Relevância para o contexto brasileiro
Embora o estudo seja restrito ao Reino Unido, seus achados alimentam um debate relevante também para o Brasil: à medida que optometristas ampliam sua atuação clínica, a adequação de diretrizes e marcos regulatórios torna-se essencial para garantir segurança ao paciente e clareza sobre responsabilidades profissionais.