Perda de Visão de Perto Aumenta na China e no G20, Enquanto Distúrbios Refrativos Recuam, Segundo Dados do GBD 2021
Contexto
A perda de visão de perto (PVP) — correspondente à presbiopia não corrigida — e os distúrbios refrativos (DR) como miopia, hipermetropia e astigmatismo não corrigidos representam fontes relevantes de incapacidade visual em adultos. Um estudo publicado recentemente utilizou dados do Global Burden of Disease (GBD) 2021 para analisar tendências de longo prazo (1990–2021) e projetar a carga dessas duas condições até 2038, com foco comparativo entre a China e os países do G20.
Metodologia
Os pesquisadores extraíram dados do repositório GBD 2021 referentes a adultos com 40 anos ou mais, estratificados em intervalos de cinco anos. As métricas principais foram a taxa de prevalência padronizada por idade (TPPI) e a taxa de anos de vida ajustados por incapacidade padronizada por idade (TAVAI), ambas expressas por 100 000 habitantes. Tendências temporais foram avaliadas por meio da variação percentual anual estimada (VPAE) e por regressão de joinpoint, que identifica pontos de inflexão ao longo do período. Projeções de 2022 a 2038 foram elaboradas com modelo bayesiano de idade-período-coorte (BAPC). Uma análise de decomposição quantificou as contribuições relativas do crescimento populacional, do envelhecimento e de mudanças epidemiológicas para as variações na carga absoluta de doença.
Cenário Atual: Divergência entre PVP e DR
Em 2021, a TPPI de PVP na China era de aproximadamente 40 341 por 100 000, valor superior ao registrado no G20 (cerca de 35 935 por 100 000). Para os DR, o padrão se inverteu: a China apresentou TPPI de aproximadamente 3 045 por 100 000, abaixo da média do G20 (cerca de 3 695 por 100 000).
Entre 1990 e 2021, a TPPI de PVP cresceu aproximadamente 60% tanto na China quanto no G20. Em contraste, a carga de DR recuou no mesmo período, com VPAEs negativas em ambas as regiões.
Disparidades por Sexo e Faixa Etária
Em todas as regiões analisadas, mulheres apresentaram carga maior de PVP e DR do que homens. Em 2021, a TPPI de PVP para mulheres na China foi de aproximadamente 42 918 por 100 000, frente a cerca de 37 712 para homens. No G20, a diferença foi similar: aproximadamente 38 312 em mulheres contra 33 394 em homens. Essa disparidade persistiu após a padronização por idade, indicando que a estrutura etária não explica integralmente a diferença. Os autores apontam possíveis contribuições de fatores hormonais — como alterações pós-menopáusicas — e diferenças em perfis de risco social ou comportamental, embora reconheçam que a natureza ecológica do estudo não permite estabelecer causalidade.
No que diz respeito à distribuição etária, o pico da carga de PVP ocorreu nos grupos de meia-idade: faixa de 60 a 64 anos na China e de 55 a 59 anos no G20. A carga de DR foi mais elevada em adultos mais velhos, com pico na faixa de 80 a 84 anos em ambas as regiões.
Pontos de Inflexão nas Tendências Temporais
A análise de joinpoint revelou que a carga de PVP, tanto na China quanto no G20, atingiu seu nível mais baixo em torno de 1995 e passou a crescer a partir daí. O crescimento mais acelerado na China ocorreu entre 2019 e 2021; no G20, o período de expansão mais rápida foi entre 2011 e 2014.
Para os DR, a China registrou o crescimento mais acentuado entre 1995 e 2000, com declínio subsequente. No G20, houve uma reversão temporária da tendência de queda após 2015, embora o declínio de longo prazo se mantenha quando avaliado pelo VPAE global do período completo — reflexo de reduções expressivas nas décadas anteriores que superam o aumento recente.
Projeções até 2038
O modelo BAPC projeta que a carga de PVP continuará crescendo até 2038. Na China, a TPPI deverá subir de aproximadamente 40 341 para cerca de 51 500 por 100 000 (intervalo de credibilidade de 95%: 25 000–84 000). No G20, a elevação projetada é de aproximadamente 35 935 para cerca de 46 000 por 100 000 (IC 95%: 23 000–71 000).
Para os DR, as projeções apontam redução contínua: na China, de cerca de 3 045 para aproximadamente 2 500 por 100 000 (IC 95%: 1 900–3 200); no G20, de cerca de 3 695 para aproximadamente 3 100 por 100 000 (IC 95%: 2 400–3 900). Os autores ressaltam que os amplos intervalos de incerteza indicam que o trajeto futuro pode ser influenciado por avanços tecnológicos, mudanças de política de saúde ou alterações demográficas não previstas.
Determinantes do Crescimento da Carga Absoluta
A decomposição das variações nos números absolutos de casos mostrou que o crescimento populacional foi o principal motor do aumento da carga tanto de PVP quanto de DR em ambas as regiões. Para PVP, o crescimento populacional respondeu por cerca de 59% do aumento nos DALYs na China e no G20. Fatores epidemiológicos — como maior exposição a trabalho visual de perto e uso de dispositivos digitais — contribuíram positivamente com aproximadamente 36% na China e 39% no G20. O envelhecimento teve impacto proporcionalmente menor.
No caso dos DR, o crescimento populacional superou 100% de contribuição aos DALYs (aproximadamente 105% na China e 117% no G20), indicando que sem esse fator a carga absoluta teria caído. As mudanças epidemiológicas exerceram efeito negativo, reduzindo a carga em cerca de 32% na China e 28% no G20 — resultado coerente com a queda das taxas padronizadas por idade ao longo do período.
Implicações para a Prática e para Políticas de Saúde Ocular
Os autores destacam que a população de meia-idade com PVP — em plena atividade laboral — representa um alvo prioritário para rastreamento ocupacional e acesso subsidiado a óculos de leitura. Modelos de atenção primária ocular acessíveis e de baixo custo são apontados como necessários, em consonância com a Estratégia Global de Saúde Ocular da OMS (2022–2030). O estudo também chama atenção para a necessidade de intervenções sensíveis ao sexo, dada a maior carga persistente entre mulheres.
Os autores reconhecem limitações: os dados disponíveis cobrem até 2021; a heterogeneidade interna dos países do G20 não foi explorada; e regiões com infraestrutura diagnóstica limitada podem ter a carga subestimada.