Psicofármacos Anticolinérgicos e Complicações Oculares: do Olho Seco ao Glaucoma Agudo de Ângulo Fechado

Psicofármacos Anticolinérgicos e Complicações Oculares: do Olho Seco ao Glaucoma Agudo de Ângulo Fechado

Contexto clínico

Diversos psicofármacos — incluindo antipsicóticos e certos antidepressivos — exercem efeitos anticolinérgicos que podem repercutir sobre a visão. As complicações variam desde olho seco e visão turva transitória até o glaucoma agudo de ângulo fechado (GAAF), uma emergência oftalmológica capaz de causar perda visual permanente. Entender as diferenças fisiopatológicas entre esses desfechos é essencial para a conduta segura com esses medicamentos.

Mecanismos de visão borrada por anticolinérgicos

O receptor muscarínico M3 predomina no esfíncter da íris, no corpo ciliar e na glândula lacrimal. O bloqueio desse receptor por anticolinérgicos pode reduzir a produção lacrimal, gerando olho seco e visão turva transitória, manejável com lágrimas artificiais. Além disso, a inibição colinérgica no corpo ciliar compromete a acomodação — a capacidade do olho de ajustar o foco para distâncias próximas —, resultando em visão borrada para perto e fotossensibilidade aumentada.

A intensidade dessas alterações é proporcional à carga anticolinérgica do medicamento. Entre os psicofármacos com maior potencial, destacam-se os antidepressivos tricíclicos (ADTs), nos quais a visão borrada pode ocorrer em até um terço das iniciações. Com antipsicóticos, essa taxa varia entre 10% e 20% conforme o agente. Medicamentos como benztropina, difenidramina e triexifenidila, usados no manejo de sintomas extrapiramidais, também somam à carga anticolinérgica total.

A xanomeline/cloreto de tróspio, combinação recente, apresenta taxas de visão borrada menos frequentemente relatadas em estudos (3%), embora o antagonismo M3 periférico do tróspio mantenha potencial para interferir na acomodação.

Manejo da visão borrada anticolinérgica

O quadro costuma surgir logo após o início do medicamento e tende a ser temporário, podendo haver tolerância com o uso contínuo. A estratégia preferencial é não farmacológica: redução de dose, desaceleração da titulação ou suspensão do agente causador. Os sintomas geralmente se resolvem dentro de poucas horas após a eliminação do fármaco. Evidências de opinião de especialistas sugerem o uso de colírio de pilocarpina ou betanecol como opções de curto prazo; óculos corretivos também podem auxiliar na visão de perto.

GAAF induzido por fármacos: uma emergência oftalmológica

Embora raro, o GAAF representa o desfecho mais grave associado ao uso de anticolinérgicos. Ele ocorre quando a íris entra em contato com a malha trabecular, obstruindo o fluxo do humor aquoso e elevando a pressão intraocular (PIO). Fatores de risco anatômicos e individuais — como ângulos iridocorneanos estreitos — predispõem determinados pacientes a esse evento.

No mecanismo anticolinérgico, a midríase faz a íris tocar o cristalino, bloqueando a drenagem do aquoso e elevando a PIO. Vale notar que outros mecanismos também existem: fármacos como topiramato, escitalopram e outras drogas serotonérgicas podem causar GAAF por deslocamento do diafragma íris-cristalino, via distinta da via anticolinérgica clássica.

O GAAF tipicamente se manifesta dentro de semanas após o início do medicamento. Os sintomas — visão turva súbita, dor ocular, cefaleia frontal, náusea, vômito e halos ao redor de luzes — geralmente aparecem em poucas horas após o fechamento angular. Ao exame, caracteriza-se por PIO elevada (frequentemente acima de 40 mmHg), pupila fixa em midríase média, injeção conjuntival, edema de córnea e ângulo iridocorneano fechado à gonioscopia.

Sem tratamento imediato, a perda visual permanente pode ocorrer em questão de horas. O tratamento envolve medicação para reduzir a PIO e iridotomia periférica a laser para restaurar a drenagem do aquoso.

Conduta prática

Diante de sintomas suspeitos de GAAF, o paciente deve suspender o medicamento e ser encaminhado imediatamente a um oftalmologista ou, na ausência deste, a uma unidade de emergência. Antes de iniciar anticolinérgicos em pacientes com fatores de risco, recomenda-se investigar história de ângulos estreitos e, se necessário, consultar um oftalmologista previamente.

Na maioria dos casos confirmados de GAAF, o medicamento causador não deve ser reiniciado. Exceção pode ser considerada quando o GAAF decorreu de bloqueio pupilar e foi tratado com sucesso por iridotomia a laser, sempre em colaboração com oftalmologia.

Caso ilustrativo

Uma paciente de 21 anos com transtorno esquizoafetivo iniciou xanomeline/cloreto de tróspio após troca do olanzapina. Dez dias após o início, relatou visão borrada de piora progressiva, especialmente para leitura. Ao ser orientada a suspender o medicamento e encaminhada a um oftalmologista, a tonometria excluiu GAAF e o quadro foi atribuído a efeito anticolinérgico. A visão borrada se resolveu em dias após a suspensão. Por preferência da paciente, o medicamento não foi reiniciado; cariprazina foi escolhida como alternativa por seu perfil metabólico e anticolinérgico mais favorável.

Fontes

Read more

Peonidin, pigmento de antocianina, demonstra potencial inibitório em enzimas ligadas ao glaucoma e outras doenças

Peonidin, pigmento de antocianina, demonstra potencial inibitório em enzimas ligadas ao glaucoma e outras doenças

Peonidin no radar oftalmológico Um estudo recente avaliou as propriedades biológicas da peonidin, uma antocianina solúvel em água responsável pelas colorações vermelha, roxa e azul em diversas plantas, frutas, vegetais e grãos de cereais. Os pesquisadores investigaram tanto a capacidade antioxidante quanto o potencial de inibição enzimática do composto, com

By Equipe Olhar Clínico
Revisão sistemática canadense mapeia programas de acesso oftalmológico para populações vulneráveis

Revisão sistemática canadense mapeia programas de acesso oftalmológico para populações vulneráveis

Contexto Populações que enfrentam barreiras ao cuidado ocular — comunidades indígenas, pessoas em situação de rua, imigrantes, refugiados e estudantes de baixa renda — frequentemente não chegam ao consultório oftalmológico convencional. Uma revisão sistemática recém-publicada mapeou programas canadenses voltados a esse desafio, avaliando seus modelos de entrega, rendimento clínico e desfechos de

By Equipe Olhar Clínico
Microagulhas e Exossomos: Uma Plataforma de Entrega Combinada para Doenças Oculares e Multissistêmicas

Microagulhas e Exossomos: Uma Plataforma de Entrega Combinada para Doenças Oculares e Multissistêmicas

Visão Geral A combinação de microagulhas (MNs) com exossomos surge como uma das direções mais promissoras na entrega localizada de terapias biológicas. Uma revisão recente sistematizou os avanços nessa área, cobrindo publicações predominantemente entre janeiro de 2023 e junho de 2026, e organizou as evidências por doença, relacionando as barreiras

By Equipe Olhar Clínico