Retinopatia Diabética na Atenção Primária do Bahrein: Um em Sete Pacientes Afetados

Retinopatia Diabética na Atenção Primária do Bahrein: Um em Sete Pacientes Afetados

Contexto

A retinopatia diabética (RD) permanece uma das principais causas evitáveis de cegueira em adultos. Embora estudos regionais e globais já tenham documentado sua prevalência em contextos hospitalares, dados provenientes de centros de atenção primária no Oriente Médio — especialmente no Bahrein — ainda são escassos. Um novo estudo transversal conduzido em todos os centros de saúde primária do país buscou preencher essa lacuna, estimando a prevalência e os preditores independentes de RD nessa população.

Desenho e Metodologia

O estudo foi conduzido entre outubro e novembro de 2025, incluindo adultos com diabetes mellitus (DM) atendidos em clínicas de doenças não transmissíveis dos 26 centros de atenção primária do Bahrein, distribuídos em quatro governadorias. A amostragem foi probabilística: dois meses foram selecionados aleatoriamente por sequência gerada por computador, e todos os pacientes consecutivos atendidos nesse período foram elegíveis.

O exame de retina foi realizado por uma enfermeira especialista em optometria, treinada em triagem retiniana, com o uso de uma câmera retiniana não midriática (TOPCON NW500), capaz de produzir imagens binoculares de dois campos com campo visual de 50°. O dispositivo permite imageamento por pupilas de até 2,0 mm, dispensando dilatação farmacológica na maioria dos casos — o que facilita o fluxo em ambiente de atenção primária. Os resultados foram classificados em retina normal, retinopatia não proliferativa e retinopatia proliferativa.

Dados sociodemográficos, comorbidades, exame físico (incluindo teste do monofilamento para neuropatia) e marcadores laboratoriais (HbA1c, perfil lipídico, taxa de filtração glomerular estimada — TFGe) foram coletados simultaneamente ao exame retiniano. A confiabilidade inter e intraobservador foi avaliada pelo coeficiente κ, com resultados considerados altos.

Perfil dos Participantes

Ao todo, 594 pacientes foram incluídos, com taxa de resposta de 93,5%. A mediana de idade foi de 61 anos; a maioria era do sexo masculino (56,7%), de nacionalidade bahreiniana (85,2%) e portadora de DM tipo 2 (96,8%). A mediana de duração do diabetes foi de 11 anos. As comorbidades mais frequentes foram dislipidemia (77,9%) e hipertensão arterial (66,8%). Em relação ao controle glicêmico, a maioria dos pacientes (60,9%) apresentava diabetes descontrolado (HbA1c ≥ 7%).

Prevalência de Retinopatia

RD foi identificada em 14,8% dos pacientes (IC 95%: 11,9%–17,7%), o equivalente a aproximadamente um em cada sete indivíduos. A forma não proliferativa correspondeu a 13% dos casos, enquanto a forma proliferativa afetou 1,8%. Essa taxa é inferior à prevalência combinada reportada em outros países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), estimada em torno de 20,5% em revisão sistemática com mais de 60 mil pacientes, e também menor do que as taxas descritas em estudos africanos e egípcios.

Os autores atribuem a prevalência relativamente mais baixa à existência de programas estruturados de triagem na atenção primária do Bahrein, ao perfil dos pacientes — possivelmente mais engajados com o cuidado por frequentarem clínicas especializadas —, e ao modelo de descentralização com uso de imagem retiniana automatizada por enfermeiras treinadas. O estudo aponta que esse modelo pode servir de referência para regiões com alta prevalência de diabetes e escassez de oftalmologistas.

Preditores Independentes

A análise de regressão logística identificou quatro preditores independentes de RD:

  • Duração prolongada do diabetes (OR=1,576): quanto mais tempo de doença, maior o acúmulo de dano microvascular na retina. Alguns estudos anteriores consideram essa a variável de maior peso entre todos os fatores de risco.
  • Hipertensão arterial (OR=1,912): a pressão elevada agrava as alterações vasculares retinianas e potencializa os efeitos da hiperglicemia crônica. A literatura indica que mesmo leituras discretamente elevadas aumentam o risco de RD.
  • Teste do monofilamento alterado (OR=2,92): a presença de neuropatia periférica foi o preditor com maior magnitude de efeito no modelo. Isso reflete uma fisiopatologia microvascular comum, na qual hiperglicemia e comprometimento vascular afetam simultaneamente nervos e vasos retinianos. Os autores sugerem que sinais neuropáticos podem funcionar como indicador clínico de doença retiniana concomitante.
  • HbA1c elevada (OR=1,013 por mmol/mol): o mau controle glicêmico, mesmo com incrementos discretos na hemoglobina glicada, associou-se de forma independente ao risco de retinopatia.

A idade, embora significativa na análise univariada, não se manteve como preditor independente após ajuste pelas demais variáveis.

Implicações Clínicas

Os achados reforçam a importância da triagem retiniana anual integrada à atenção primária, especialmente para pacientes com maior tempo de diagnóstico, hipertensão ou controle glicêmico inadequado. O modelo bahreiniano — com câmeras não midriáticas operadas por profissionais de optometria treinados em todos os centros de saúde — demonstrou ser viável e pode reduzir a dependência de especialistas em oftalmologia para a triagem populacional.

Além da triagem, o estudo destaca que o controle integrado da glicemia e da pressão arterial é essencial para reduzir a incidência e a progressão da RD. A coexistência de neuropatia periférica deve alertar o clínico para a possibilidade de comprometimento retiniano simultâneo.

Limitações

O estudo restringiu-se a pacientes que frequentam as clínicas especializadas de atenção primária, o que pode subestimar a prevalência real de RD na população diabética geral — indivíduos não vinculados a esses serviços podem apresentar taxas mais altas. Variáveis como nível socioeconômico, dieta, atividade física e adesão medicamentosa não foram avaliadas. Por fim, o desenho transversal não permite estabelecer relações de causalidade.

Fontes

Read more

Peonidin, pigmento de antocianina, demonstra potencial inibitório em enzimas ligadas ao glaucoma e outras doenças

Peonidin, pigmento de antocianina, demonstra potencial inibitório em enzimas ligadas ao glaucoma e outras doenças

Peonidin no radar oftalmológico Um estudo recente avaliou as propriedades biológicas da peonidin, uma antocianina solúvel em água responsável pelas colorações vermelha, roxa e azul em diversas plantas, frutas, vegetais e grãos de cereais. Os pesquisadores investigaram tanto a capacidade antioxidante quanto o potencial de inibição enzimática do composto, com

By Equipe Olhar Clínico
Revisão sistemática canadense mapeia programas de acesso oftalmológico para populações vulneráveis

Revisão sistemática canadense mapeia programas de acesso oftalmológico para populações vulneráveis

Contexto Populações que enfrentam barreiras ao cuidado ocular — comunidades indígenas, pessoas em situação de rua, imigrantes, refugiados e estudantes de baixa renda — frequentemente não chegam ao consultório oftalmológico convencional. Uma revisão sistemática recém-publicada mapeou programas canadenses voltados a esse desafio, avaliando seus modelos de entrega, rendimento clínico e desfechos de

By Equipe Olhar Clínico
Microagulhas e Exossomos: Uma Plataforma de Entrega Combinada para Doenças Oculares e Multissistêmicas

Microagulhas e Exossomos: Uma Plataforma de Entrega Combinada para Doenças Oculares e Multissistêmicas

Visão Geral A combinação de microagulhas (MNs) com exossomos surge como uma das direções mais promissoras na entrega localizada de terapias biológicas. Uma revisão recente sistematizou os avanços nessa área, cobrindo publicações predominantemente entre janeiro de 2023 e junho de 2026, e organizou as evidências por doença, relacionando as barreiras

By Equipe Olhar Clínico